Estou Construindo Nos Tempos Antigos - Capitulo 54


Capítulo 54 – Insidioso

Liu San recolocou o pano preto no rosto. Seus olhos traiçoeiros, semelhantes aos de um rato, cintilavam à luz fraca. Ele soltou uma risada maldosa e partiu com trinta homens para se encontrar com Hei Mao.

"Esse general Duan é mesmo um idiota completo, levando um bando de gente pra soltar lanternas no rio. Devia comer um pouco de cérebro de porco pra ver se o dele funciona. É mais burro que uma mula."

"Ouvi dizer que essa tal cidade de Xinyang cria muitos porcos. Será que é por isso que os moradores estão ficando tão burros quanto eles? Hahaha!"

"É isso mesmo! E dizem que aquele 'Duan Burro' tem sob seu comando um sujeito que deve ter sido rei dos javalis na vida passada."

"Os soldados dele? Bah! Um bando de cabeças de porco."

Mais ao norte, na encosta da colina, Liu San se encontrou com Hei Mao e sua turma. Hei Mao vigiava o alto da montanha com seus homens. Usava roupas de operações noturnas e tinha um corpo grande e robusto. Um pano preto cobria seu rosto, revelando apenas dois olhos redondos e arregalados como os de um gato — o que dava a ele um ar cômico.

"O general Duan já saiu com seu pessoal?" — perguntou Hei Mao em voz baixa. Olhou para baixo da colina, onde os lampiões vermelhos ainda brilhavam em Xinyang. As ruas estavam vazias, só restando as lanternas. Aqueles lampiões que normalmente representavam celebração, agora, sob o luar, pareciam aterradores, exalando um ar sombrio.

"Já saíram. E vocês? Estão prontos?"

"Prontíssimos. Já espalhei meus homens ao redor de toda a cidade. Quando o sinal for dado, acendemos o fogo ao mesmo tempo. Vai ser uma chama só! Essa cidade que se diz 'Xinyang' — Cidade do Sol — vai brilhar de verdade no meio do fogo."

Liu San assentiu, satisfeito, e disse num tom frio e cruel:"Essa tal cidade do sol... que pena. Só brilhou por um dia. Hahahaha."

Hei Mao também deu uma gargalhada:"Hahahaha."

"Hei Mao, sua risada hoje tá meio... estranha."

"Terceiro irmão, o que tem de errado comigo hoje?" perguntou Hei Mao, piscando os olhos.

"Você está mais animado do que o normal. Será que é falta de mulher? Você está tão feliz. Hehehe. Quando isso aqui terminar, vou pedir pro chefe te mandar belas moças."

Hei Mao esfregou as mãos com um olhar lascivo:"Terceiro irmão, você leu minha mente! Eu não aguento mais. Vamos logo com isso, antes que aquele maldito general volte."

"Aquele cabeça de porco não volta tão cedo. E quando voltar, a gente já terá saqueado e queimado todos os armazéns. Nem um grão de arroz vai sobrar. Meu terceiro irmão morreu pelas mãos daqueles bastardos. É hora de cobrar o sangue com sangue."

"Já sabem onde fica o armazém?"

"Há muito tempo. Aquele general é mais burro que um porco. Ele deixou só uns dez soldados guardando o lugar. Eu mandei alguém dar uma olhada agora há pouco — os guardas comeram bolinhos com vinho e passaram a tarde toda bebendo. Devem estar dormindo nesse exato momento."

"E os nossos homens já estão posicionados?"

"Hmph. Esse bando de imprestáveis."

Liu San e Hei Mao, com seu grupo, se infiltraram em Xinyang. Sob a luz dos lampiões vermelhos, se esgueiravam entre beirais e telhados. Nas ruas, alguns guardas patrulhavam preguiçosamente, segurando jarros de vinho.

Para não alertar os guardas e dar tempo de chamarem reforços, o grupo avançava com extremo cuidado, mesmo em vantagem numérica.

A noite escura escondia muitas coisas estranhas.

Liu San prendeu a respiração e se encostou na parede enquanto um guarda passava bocejando perto deles.

Sem que Liu San percebesse, dois homens saíram silenciosamente de um poço ao fundo. Um deles arrastou para dentro um dos homens de preto, substituindo-o. Ao notar algum ruído atrás de si, Liu San estava prestes a virar e dar uma bronca, mas, antes disso, o guarda que passava soltou um suspiro:"Ah... Como eu queria estar com o general soltando lanternas no rio. Minha amada distante, quando você vai sentir meu amor?"

Sozinho e achando que ninguém o ouvia, o guarda pensou na garota que amava. Emocionado, ele começou a chorar alto, limpando as lágrimas com um lencinho enquanto caminhava com o lampião na mão.

Naquela noite de lanternas vermelhas, uma cena tão inusitada foi ainda mais arrepiante.

Depois que o guarda sumiu na escuridão, Liu San se sentiu enojado e satisfeito.

"Jamais pensei que os homens desse tal general fossem tão ridículos."

Um brutamontes de dois metros de altura... chorando com lencinho! Que nojo!

"Chego em Xinyang e vejo um general fazendo lanternas inúteis pra agradar o marido, e os guardas... usando lenços pra enxugar lágrima..."

Isso precisava ser contado na aldeia.

Hei Mao, por sua vez, observava a cena com um sorriso escondido e pensou consigo: "Esse maluco... Deve ter assistidos muitas peças."

Em seguida, ele respondeu a Liu San:"Pois é... Esse cachorro de general Duan não chega aos pés do nosso chefe."

"Antes diziam que os soldados dele valiam por cem. Agora vejo que a fama deve ter vindo do choro. Hahaha."

"Shhh! Silêncio, tem gente vindo."

Liu San ordenou:"Eliminem esses guardas, um por um."

Hei Mao respondeu em voz baixa:"Deixa comigo, irmão. Pode confiar em mim."

Um grito distante ecoou — "Ah!" — e um dos patrulheiros desapareceu. Um novo homem de preto apareceu atrás de Liu San.

Satisfeito com o som, Liu San sorriu para Hei Mao:"Quando voltarmos, vou te dar o crédito por tudo."

Hei Mao deu uma risadinha:"Conto com você pra falar bem de mim pro chefe."

Os dois chegaram enfim ao armazém de grãos de Xinyang. Havia uma fogueira acesa e dois guardas estavam bebendo vinho e assando espigas de milho.

"Olha, esse milho que eu assei é dos bons!"

"Milho assado nada, você queimou tudo! Olha a casca toda queimada."

"Ai, ai, você que não entende. Milho doce tem que assar com casca — só assim o sabor e o aroma saem de verdade. Por fora parece queimado, mas por dentro está macio, doce e dourado."

"Duvido."

"Espera só, está quase no ponto."

Rindo e bebendo, os dois se abraçaram com alegria. Mas, nesse momento, uma sombra apareceu das trevas. Alto e magro, vestia-se de preto e sorria de forma sinistra:"Pena que vocês não vão ter tempo pra provar."

Assustados, os soldados deixaram o milho cair e recuaram, vendo vários homens de preto saindo das sombras. Amedrontados, se abraçaram:"Q-quem são vocês?!"

"Viemos tirar a vida de vocês, seus inúteis!" — gritou Liu San, rindo de forma desenfreada ao ver os dois tremendo de medo.

Logo, os dois foram capturados. Para Liu San, aqueles dois eram completos inúteis — nem coragem pra cavar a própria cova tinham.

"Hei Mao, dá o sinal. Manda acender tudo."

Hei Mao assentiu. Fogos de artifício explodiram no céu, e as chamas começaram a se espalhar ao redor da cidade. Vendo o incêndio, Liu San gargalhou como um louco.

Outros guardas do armazém notaram o fogo e começaram a gritar:"Tem pessoas invadindo!"

"Ladrão!"

"Vão chamar reforços! A cidade está pegando fogo!"

Liu San se animou ao ver o caos, mas logo estranhou o comportamento dos seus homens. Eles estavam parados, em silêncio.

"Ei! O que estão fazendo? Matem logo esses dois e vamos carregar os grãos. O que não der pra levar, queimem tudo!"

"Por que estão parados?! Hei Mao, você—"

Hei Mao deu um chute em Liu San, deu uma cambalhota no ar e pegou o milho do chão, jogando no fogo. Então, arrancou o pano do rosto e apontou para si mesmo:"Olha bem, eu não sou o Hei Mao. Eu sou o seu vovô, Liang Feng."

Liu San caiu de cara no chão. Levantou-se segurando o traseiro e gritou:"Desgraçado!"

"Peguem ele! Quero vê-lo em pedaços!"

Liang Feng coçou o nariz, fez uma careta e disse:"Irmão Liu San, melhor olhar bem ao redor..."

Liu San virou-se e viu que todos os homens de preto já tinham retirado os panos do rosto. Nenhum era conhecido. No chão, jaziam cerca de dez homens que haviam sido nocauteados.

Em tão pouco tempo, metade do grupo havia sido substituído.

"Vocês...!"

"Que 'vocês' o quê? Irmãos, vamos cuidar desses ladrões!" gritou Liang Feng.

Em poucos minutos, Liu San e seus comparsas foram capturados. Liang Feng deu um tapa no rosto de Liu San, que o olhou com ódio mortal.

"Está olhando o quê, desgraçado? Você queria invadir Xinyang e ainda sonhava em sair vivo? Espera o general voltar — aí sim vocês vão ver."

"Pff!"

"Liang Feng, para de perder tempo. Cala a boca dele logo."

"Feng-ge, hoje você fez bonito."

"Enganamos bem esses desgraçados. Foi ótimo!"

"Gan Chao, você se superou com aquele choro. Deu até nojo!"

"Hahaha! E você, Feng-ge, mandou bem nas ofensas ao general. Nem pareceu que era encenação. Se o general souber—"

"Ei, ei, ei! Tudo encenação! No fundo, o general é meu herói. Se alguém se atrever a sujar meu nome com ele, eu luto com ele!"

O milho estourou no fogo, carbonizado por completo. Liu Dong — o guarda que fingia assar milho — gritou:"Você destruiu o milho que eu assei com tanto carinho! Vou te entregar pro general!"

"É só uma espiga, depois eu te dou outra."
.
.
.
.



Comentários

Postagens mais visitadas