Estou Construindo Nos Tempos Antigos - Capitulo 48
Capitulo 48 - Crescimento
Aquele lugar era um verdadeiro tormento. Ainda por cima, com a perna de Cheng Haixiang fraturada por ele, a dor era insuportável — mesmo que fosse possível se recuperar, certamente serviria como uma boa lição.
Xiao Yuhe balançou a cabeça.
"Querido, mande ele embora amanhã. Eu não quero ver esse homem aqui em Yangzhou."
Duan Shubai refletiu por um momento.
"Está bem. Vou mandar alguém cuidar disso em alguns dias."
Embora estivesse tentado a deixá-lo sofrendo no campo de treinamento militar, mantê-lo em Yangzhou seria um incômodo constante. Melhor acatar o desejo de seu amado: expulsá-lo de vez da cidade. Mas, em seu íntimo, já havia decidido não deixá-lo sair ileso. Quando o momento chegasse, quebraria as pernas dele de novo e o largaria nas ruas de Xuanzhou.
Esse plano, no entanto, não foi compartilhado com Xiao Yuhe.
"Mas... ele não estava na capital? Por que apareceu de repente aqui em Yangzhou?" perguntou Yuhe, intrigado.
Duan Shubai rangeu os dentes.
"Foi culpa do Fu Qianxi, aquele maldito."
Apesar de Cheng Haixiang ter vindo por acaso, no fim das contas, havia uma conexão clara com Fu Qianxi. Ele deveria ter recrutado um estrategista, mas acabou trazendo um... rival amoroso. Rival? Que piada! Cheng Haixiang não era digno nem de ser chamado disso — era apenas um sujeito nojento.
O olhar de Xiao Yuhe se encheu de curiosidade. Fu Qianxi que o trouxe? Mesmo assim, não fazia sentido acabar com alguém como Cheng Haixiang da capital.
"O tio do imperador caiu em desgraça, e a família Cheng foi arrastada junto. Eles foram rebaixados e enviados a Xuanzhou. Foi lá que Haixiang conheceu o senhor Shi, um amigo de Fu Qianxi, e, ao saber que você estava aqui, resolveu segui-lo até Yangzhou."
"Se a família dele caiu... e a minha? Está tudo bem?" a voz de Yuhe se tingiu de preocupação.
"Fique tranquilo, com a sua família está tudo em ordem. Você não tem trocado cartas com sua mãe normalmente?"
Duan Shubai abaixou o olhar. Embora a família Xiao ainda estivesse intacta, ele via que a situação na capital estava prestes a ruir. Os eunucos corruptos estavam voltando ao poder, e em um ou dois anos, o império mergulharia no caos. A podridão da corte imperial vinha desde a raiz. Um império podre, prestes a desabar.
A mãe de Yuhe ainda estava na capital... e isso, infelizmente, era um risco. Se algo acontecesse com ela, ele sabia o quanto seu amado sofreria.
"Yuhe, o que acha de trazermos sua mãe para cá dentro de alguns meses?"
Yuhe ficou surpreso por um instante. Em seguida, seus olhos se iluminaram.
"Trazer minha mãe para cá?"
Duan Shubai assentiu.
"Agora que você está esperando um bebê, ela certamente ficará radiante. Vamos trazê-la o quanto antes para conhecer o netinho."
Como Yuhe era filho único de uma viúva, trazê-la para Yangzhou não seria algo difícil de arranjar.
"A capital é instável. A qualquer hora algo pode acontecer. Yangzhou pode não ter o mesmo brilho, mas é muito mais segura. Enquanto eu estiver aqui, não deixarei que nada aconteça com você ou com ela." Ele explicou com firmeza, apontando os riscos e as vantagens.
Xiao Yuhe escutou atentamente e assentiu com seriedade."Entendi, meu bem. Vou escrever para ela e tentar convencê-la a vir."
Duan Shubai afagou seus cabelos com carinho.
"Não se preocupe demais. O mais importante agora é você se cuidar. Deixe um pouco de lado os assuntos do consultório. Cuide da sua saúde antes de tudo."
Aconchegado nos braços dele, Xiao Yuhe respondeu com um leve "hm" pelo nariz, sereno e obediente.
O mingau que Duan Shubai havia preparado ficou pronto. Depois de tomar o remédio para fortalecer a gravidez e comer o mingau bem quentinho, Yuhe adormeceu com um sorriso nos lábios.
Enquanto isso, Cheng Haixiang, após ter a perna tratada, foi jogado dentro do chiqueiro de javalis para cuidar dos porcos. Com o fim do outono se aproximando, os animais estavam fortes e robustos — cada um deles maior e mais musculoso que quatro ou cinco homens juntos. Cheng, com o corpo já frágil pelos anos de luxúria, tremia só de ver os bichos.
Embora domesticados, os javalis ainda mantinham seu temperamento feroz, reinando como imperadores em seus currais, exigindo serviço à altura. Um movimento em falso, e o casco deles não perdoava.
Mancando, cobrindo o nariz, Cheng Haixiang alimentava os porcos com cuidado, mas um deles quase mordeu sua mão. Ele caiu de costas, assustado.
Um dos empregados da fazenda riu.
"Parece que esses porcos gostaram de você. Devia ficar aqui pra sempre, como tratador. Combina com você."
Ele? Um tratador de porcos? Aquilo era a maior humilhação da sua vida. Um dia, ele fora o jovem mais elegante da capital...
Mas mesmo cheio de rancor, Cheng não ousava se rebelar. O campo de treinamento onde estava preso já vira todo tipo de malandro e criminoso, todos mais cruéis que ele. Suas artimanhas eram inúteis ali.
Duan Shubai já havia dado ordens: tratem-no "bem".
E como metade de Xinyang havia se beneficiado dos favores de Duan Shubai, qualquer um que ousasse difamar seu esposo era inimigo da cidade inteira. Eles afiavam as facas — e não era figura de linguagem — para receber o tal "Haixiang".
Cheng Haixiang vivia agora um inferno em vida.
Apanhava tanto que nem coragem tinha para responder.
Aquela fantasia de que ainda poderia conquistar Xiao Yuhe evaporou. Yuhe podia até ser seu primo, mas estava fora do seu alcance. Afinal, aquele lar já era um ninho de tigres — e ele não era herói nenhum.
"Estava cego pela beleza... vim pra Yangzhou só pra me meter com esse demônio chamado Duan Shubai!"
Na capital, as disputas por amores eram apenas joguinhos de palavras, brigas de reputação. Ninguém ousava ir longe demais. Mas Cheng Haixiang ainda vivia no passado. Agora, sem influência, era só mais um qualquer. Yangzhou era o território de Duan Shubai. Se ele decidisse matá-lo ali, ninguém ousaria intervir.
Cheng Haixiang se arrependia amargamente.
"Se eu me desculpar publicamente... será que me deixam sair daqui?"
Ele ainda sonhava. Afinal, Xiao Yuhe era seu primo. Talvez ainda tivesse algum sentimento por ele...
"Cheng Haixiang? O general mandou levar ele."
Cheio de esperanças, Cheng exclamou:"Vão me soltar?"
Ele tinha certeza — Yuhe ainda se importava com ele.
Mas ele estava redondamente enganado.
Dois soldados o arrastaram até uma carroça. Depois, foi colocado num barco. Ao chegar em Xuanzhou, teve as pernas quebradas novamente e foi jogado fora, vestindo apenas trapos.
Nas ruas daquela cidade, ele passou a vagar como um mendigo enlouquecido, murmurando que era filho de uma família nobre...
Enquanto isso, Cui Liu, que viera com ele a Yangzhou, ainda permanecia por lá. Preocupada com a prisão de Cheng, temia ser arrastada junto. Mas, surpreendentemente, ninguém a incomodou.
Ela encontrou trabalho numa fábrica de macarrão e arroz. A vida era mais cansativa, mas, ao mesmo tempo, muito mais segura.
Aos poucos, passou a enxergar Yangzhou com outros olhos: a segurança era rígida, moças podiam sair sem serem assediadas, e os soldados eram prestativos. Ela percebeu que podia sobreviver com seu próprio esforço. Não precisava mais depender de nenhum homem ou viver com medo de ser descartada.
Ela poderia viver por si mesma!
Algo que ela jamais sonhou ser possível.
Cui Liu agradecia em silêncio por Cheng Haixiang tê-la trazido ali.
Ela abandonou os vestidos chamativos, trocou por roupas simples, adotou o nome Yu Bilan, e se tornou uma mulher digna e respeitável.
Logo depois, surgiu em Xinyang uma nova figura admirável: uma sorridente e independente dona de taverna.
"Levantem-se logo, vamos mais uma vez!"
Duan Shubai se pôs de pé com um ágil salto mortal, sorrindo animado para os homens caídos no chão.
Aqueles que jaziam estirados pelo solo imediatamente se fingiram de mortos — nem um músculo se moveu.
Duan Shubai cruzou os braços, observando a cena com um suspiro resignado.
Zhang Changle, estendido no chão, trocou um olhar com Jiang Bai. Ambos piscaram ao mesmo tempo, exaustos e impotentes, e finalmente lançaram olhares furtivos para o verdadeiro culpado: Su Gang.
Afinal, fora ele quem sugerira a insensata ideia de desafiar o general para uma luta. Ainda que todos tivessem secretamente vontade de "dar uma lição" no general, era inegável.
Mas veja só: Duan Shubai, apesar de aparentemente ileso, também não saíra sem marcas. O rosto exibia hematomas, e o corpo recebera sua cota de socos e chutes.
Queriam, no fundo, abalar um pouco a imponência do general. Porém, quanto mais combatiam, mais vigor ele parecia ganhar.
Se soubessem antes, teriam escolhido a política de não enfrentamento.
Afinal, desde que souberam da gravidez do consorte, o general estava em estado de euforia. Os subordinados haviam expressado seus parabéns por dias seguidos — mas o entusiasmo de Duan Shubai não tinha fim.
Antes, ao mencionar seu marido, ainda era discreto. Agora, com a notícia da criança, não fazia mais rodeios: passou da provocação velada à ostentação descarada.
Na frente de um bando de solteirões, ele não perdia oportunidade de exibir sua felicidade: pulava por todos os cantos, não se sentava mais em cadeiras — preferia mesas. Esquecia as portas e saltava pelas janelas. Da última vez, pulou do segundo andar diretamente para o chão, quase matando os outros de susto.
"Sabemos que está feliz por ser pai... Mas precisa se comportar como um macaquinho?"
Sua idade parecia ter regredido dez anos. Comportava-se como um jovem barulhento e sem filtros.
"Acham que meu filho será parecido comigo ou com o Yuhe. O que vocês acham? Será menino? Menina? Ou um xiao'er? Se for como Yuhe, será perfeito..."
"Mas, se for menina, hmmm... melhor que não herde muito do meu rosto, não é?"
"Será que já devo preparar as roupinhas?"
Essas perguntas se repetiam dezenas de vezes por dia. Era insuportável. Então, tomados de uma raiva contida, os soldados se uniram para "descontar" sua frustração no general.
Resultado? Foram todos ao chão.
"General, o senhor precisa se conter!"
"Modere-se, por favor!" disse Xiao Yuhe, dando um leve tapa na cabeça do marido.
A paciência de Zhang Changle e dos demais se esgotara, e todos correram para reclamar com Yuhe.
"Tá bom, eu prometo..." Duan Shubai admitiu, finalmente percebendo que seu entusiasmo ultrapassara os limites.
A porta do quarto se abriu. Uma jovem criada, vestida de verde jade, entrou carregando uma bandeja.
"Senhor, os bolinhos de feijão vermelho estão prontos."
Sentado no divã, rindo e brincando com Duan Shubai, Xiao Yuhe assentiu:
"Pode deixar na mesa."
Duan Shubai arqueou uma sobrancelha, curioso:"E o remédio para proteger o bebê, está pronto?"
"Ainda está sendo preparado, general. Mais um instante."
Duan Shubai assentiu. A criada se retirou em silêncio.
Xiao Yuhe pegou um bolinho e o estendeu aos lábios do marido.
"Fui eu quem preparou hoje. Como vou tomar o remédio depois, não vou comer — coma por mim, sim?"
Duan Shubai deu uma mordida, mas não parou por aí — lambeu de leve os dedos alvos e delicados de Yuhe. Este corou, os dedos estremeceram suavemente.
"Não devia se dar esse trabalho... agora que está grávido, devia descansar mais."
Xiao Yuhe riu com leveza:
"Minha barriga mal começou a crescer, e você já quer me tratar como inválido?"
O general o envolveu nos braços, e sussurrou junto à sua orelha delicada:
"É só que... eu me preocupo com você. Tenho medo que se canse."
Sim, a gestação já era um fardo para qualquer mulher. Para um xiao'er como Yuhe, exigia ainda mais cuidado. Desde que soubera da gravidez, Duan Shubai estava em estado de alegria e afeto constantes — e, mais que isso, vigilante.
Depois do incidente com Cheng Haixiang, ele designou dois guardas para nunca se afastarem de Yuhe, e mandou patrulhas reforçadas ao redor da casa. A cidade de Xinyang tornava-se mais caótica, e ele não permitiria qualquer perigo.
Afinal, mesmo que as palavras de Cheng Haixiang fossem distorcidas, bateram forte como um golpe na nuca.
Foi ali que Duan Shubai se deu conta: aos olhos dos outros, ele havia sido injusto com Xiao Yuhe.
Yuhe crescera entre o luxo e o conforto. Abandonar tudo por ele, viver com simplicidade... Duan Shubai jamais poderia tomar tal sacrifício como algo natural.
Felizmente, a casa que haviam construído tinha espaço de sobra. Ele mandou construir novos quartos, contratou quatro ou cinco criadas só para atender Yuhe, duas amas experientes em acompanhar gestações de xiao'er, além de dois chefs para cuidar da alimentação.
Um novo fogão foi instalado — exclusivo de Yuhe. Ninguém mais podia usá-lo.
Logo, a criada Yuexin entrou com a infusão de ervas.
Xiao Yuhe, com os olhos semicerrados, tomou tudo de uma vez. Ao terminar, os olhos começaram a pesar — a luz da vela tremulava suavemente.
Apoiando-se no peito firme do marido, ele fechava os olhos pouco a pouco.
Duan Shubai inclinou-se e murmurou, encostando-se ao ouvido rosado:
"Yuhe... sinto que te devo muito."
"Você... não me deve nada", murmurou Yuhe sonolento. "Eu sempre estive disposto..."
"Então descanse. Estou aqui."
Yuhe adormeceu sem ruído, enrolado nos braços dele como um gatinho. Duan Shubai beijou a pequena pinta vermelha entre as sobrancelhas do amado, com ternura.
Antes dele adormecer também, prometeu em silêncio:"Uma casa grande. Um chef real. Tudo que te prometi... cumprirei. E você será o xiao'er mais respeitado deste mundo."
...
Com a colheita sucessiva dos grãos, Duan Shubai organizou a abertura de fábricas de processamento de alimentos: uma para macarrão de batata-doce, outra para secar batatas, uma usina de açúcar, uma fábrica de conservas de repolho azedo, além de uma destilaria, entre outras.
Os moradores, nos momentos de folga, podiam ir trabalhar nelas e receber pagamento em dinheiro. Os produtos — como batata-doce seca, macarrão de fécula e farinha de milho — também eram adquiridos por Duan Shubai, que os enviava a Xuanzhou para serem vendidos.
Com algum dinheiro nas mãos, a população de Xinyangcheng passou a consumir com mais confiança.
Mesmo os mais pobres conseguiam pagar uma boa refeição — especialmente peixe grelhado, que se tornou o queridinho da cidade. O aroma picante e apetitoso que saía das lojas de peixe atraía até os velhos camponeses que não punham os pés num restaurante há décadas. Eles não resistiam: entravam e pediam uma boa panela de peixe para matar a vontade.
Para a surpresa de Duan Shubai, as lojas de peixe grelhado que estavam registradas em seu nome começaram a dar lucros consideráveis.
Claro, como tudo em Xinyangcheng lhe pertencia, aquilo era apenas uma gota no oceano de suas posses.
Com base numa colheita farta e na segurança alimentar da população, surgia finalmente um excedente. E com isso, a possibilidade do intercâmbio, do comércio — quebrando, aos poucos, o ciclo fechado da autossuficiência.
Duan Shubai incentivava o consumo, mas também o empreendedorismo.
Depois que os moradores aprenderam as quatro operações básicas da matemática, alguns ousaram e começaram seus próprios negócios em Xinyangcheng. Surgiram vendedores de doces, barracas de legumes, bancas de tofu. Alguns ex-camponeses deixaram a lavoura e passaram a criar peixes e camarões às margens do rio; outros começaram a trabalhar com transporte ou abriram pequenas barraquinhas de comida.
O tempo passou ligeiro. O frio chegou de repente, com o vento assobiando pelas frestas das portas.
A barriga de Xiao Yuhe começou finalmente a se mostrar. Desde que descobriram a gravidez, aquele pequeno ser que antes era ignorado pelos dois pais passou a fazer questão de se anunciar com força total: os enjoos vieram fortes, ele vomitava quase tudo o que comia, e seu corpo, embora a barriga crescesse redonda e firme, ficou visivelmente mais magro.
Duan Shubai sofria só de olhar.
Chamou vários cozinheiros para preparar diariamente caldos e pratos saborosos. Foi com muito esforço — e muito carinho — que ele conseguiu fazer seu amado voltar a ganhar alguma cor nas bochechas, recuperando, aos poucos, um pouco de sua antiga forma rechonchuda e viçosa.
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